terça-feira, 27 de agosto de 2024

Chuva fina

 E a chuva era tão mansa, fazia barulho no telhado.

A porta da cozinha estava aberta , Marlene podia ver o pequeno telhadinho que protegia a porta, era cinza e tinha telhas onduladas e uma lâmpada pequena com luz suave. Já era tarde da noite. 

A água da chuva escorria nas ondulações do telhado fazendo como se fosse uma cortina de fios prateados. Sabe daquelas de missanga que se usava nos anos 80?

O vento mudava o curso dessa água era encantador aos olho de  Marlene que desde criança adorava ficar olhando a chuva.

Quanto mais forte, com vendaval, raio e trovões mais ela ficava fascinada. 

Sua mãe morria de medo de chuva!  Dizia que era por que quando morava na roça no Paraná , cada vez que chovia tinha goteira na casa toda e se tinha vento forte o medo era de que o vento levasse a casa .

 Casa de pau a pique , casa de madeira e barro... imagino o tamanho do medo...e proteger os filhos...e não deixar molhar as coisas, as poucas roupas que tinham , o colchão de palha de milho...

Marlene via nos olhos da mãe e desespero toda vez que chovia.

Mas ela não! Ela queria sair para o meio do quintal e estar no meio da chuva, olhar de perto o vente envergando as árvores, desde criança via nisso o poder incontrolável da natureza.

Talvez não tivesse medo por que sua mãe a protegeu muito bem.

Não deixou o medo dela virar medo dessa criança. Aos cinco anos mudaram de estado e passaram a morar em uma casa de alvenaria 

Dona Amélia tinha um grande sonho ter a sua casa de tijolos.

Ela sempre ouviu a mãe dizer isso...

Enquanto olhava a chuva caindo ela se  lembrava de quantas broncas e puxões de orelha já tinha levado por chegar em casa toda molhada de chuva quando saia da escola.

Essa lembrança sempre trazia um sorriso. Dona Amélia nunca soube que Marlene andava na enchorrada da rua como quem enfrentava um rio bravo. Pura imaginação de criança.

Com a porta aberta, o vento, o chão da cozinha ficou molhado.

Se minha mãe estivesse aqui eu já iria tomar uma bronca, fechar a porta e secar o chão.

Os olhos de Marlene ficaram marejados e logo lágrimas silenciosas escorreram.

Dona Amélia não estava em casa já a um mês e meio. 

E pensar nisso deu um aperto no peito de Marlene, uma dor física!

Era o dia do aniversário de 81 anos de Dona Amélia e ela não estava em sua tão querida casa de tijolos.

Estava em uma casa de repouso 


08/01/24



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